Pesca artesanal
Perspectiva é de boa safra de camarão
Com entrada de água salgada desde outubro e estimativa de verão seco, pescadores da Colônia Z-3 sonham com fartura nas redes
Carlos Queiroz -
Se depender do cenário atual e da esperança dos pescadores, a próxima safra de camarão será marcada por bons resultados. É o que apontam a Ciência e a experiência dos trabalhadores artesanais. Desde a segunda quinzena de outubro o estuário da Lagoa dos Patos tem recebido entradas importantes de água salgada, essencial para chegada das larvas que poderão garantir fartura do crustáceo às redes nos primeiros meses de 2021.
Agora, a categoria torce para o prognóstico de verão seco ser confirmado. "Se Deus quiser vai ser melhor. Os últimos anos têm sido de muito prejuízo pra nós", resume Lourival Miranda, 72. E com o conhecimento de quem começou a tirar o sustento das águas ainda na adolescência, ele aposta em boa safra.
Quem engrossa o coro é Rui Carlos Guimarães de Mello, 62, que também iniciou a ajudar o pai na pescaria aos 14 anos de idade; tempo suficiente para captar os recados da lagoa, ainda que sem diplomas ou Ensino Fundamental completo. "A gente não estudou, mas tá vendo que a água já salgou e, mais uma vez, vai acontecer a mesma coisa: quando liberarem pra gente pescar, a força do camarão já vai ter ido embora", preocupa-se. E reforça a posição de que as datas para abertura e encerramento das safras não deveriam ser fixas como estabelece a legislação brasileira.
Volume de chuvas será decisivo
As entradas de água salgada frequentes e bastante intensas, desde a segunda quinzena de outubro até o momento, transformam-se em indício positivo do que está por vir. "Existe uma boa expectativa para a safra de 2021, possivelmente com camarões ainda com tamanho muito variado no início da safra, tendendo a melhorar ao longo do período", afirma o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Luiz Felipe Dumont.
As chuvas, entretanto, ainda podem afetar negativamente, se caírem em volumes intensos e concentrados, principalmente, durante o verão - explica o doutor em Oceanografia Biológica.
Conheça o ciclo do camarão
- O camarão-rosa pescado na Lagoa dos Patos tem origem no litoral de Santa Catarina e suas larvas são transportadas em direção ao sul entrando em estuários ao longo da costa, que são usados como berçários para o crescimento durante a fase juvenil.
- Ao contrário de muitos estuários no Brasil e no mundo, o nosso não depende das marés astronômicas, mas sim de uma complexa combinação entre ventos (quadrante sul) e chuva (baixos volumes) para permitir a entrada de água salgada; explica o professor da Furg. Essas entradas de água salgada são o transporte que as larvas precisam para serem carregadas para as regiões de berçário dentro do estuário.
- Portanto, analisar frequência e intensidade desse fenômeno pode indicar um possível sucesso ou fracasso na safra. Eventos de entrada de larvas podem acontecer, de maneira significativa, a partir do início da primavera e se estender por todo verão.
- Essas larvas se transformam em pequenos juvenis que crescem pelo período de 4 a 5 meses dentro do estuário e são alvo da pesca artesanal. Após esse período, buscam as zonas de canal e se deslocam ao oceano. Retornam para o litoral catarinense para reproduzir.
- Dessa forma, em anos com entrada de água salgada desde o início da primavera (outubro) os primeiros juvenis deixam o estuário a partir de janeiro, com aproximadamente 9 centímetros de comprimento.
- A pesca, portanto, é liberada, em 1° de fevereiro e permite a captura de camarões maiores de 9 cm (tolerância de 20%) assegurando que pelo menos uma fração desses juvenis escape da pesca e retorne ao oceano para reproduzir - explica Luiz Felipe Dumont. Seria uma das garantias para manutenção da espécie.
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário